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terça-feira, 2 de outubro de 2007

O "caso"do 'ó' com o copo

Anos 70, ditadura militar e o Brasil na "Era do milagre econômico ", os
milicos mandavam e desmandavam, como senhores feudais; o ministro da
educação Coronel Jarbas Passarinho falava em acabar com o analfabetismo e
criava o programa Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, grande
projeto do momento; na rádio, tocava sem parar a música de Tom e Ravel,
dois cantores populares:
"...Eu tenho as minhas mãos domáveis e uma sede de saber, então me ensina a
escrever...",

Para grande comoção pública, e todo mundo ouvia com o coração piedoso,
pronto para ensinar o be-a-bá.

A tarde caía, entrando pela boca da noite. Chico Duro, João Preto, Joaquim,
Toizinho da Sá Jóve, Manuelão, João Roxo, Miquelino e eu estávamos reunidos
na porta da casa do Mané Barrado, matuto curtido pela vida dura do campo,
caboclo velho, encurvado, barba grisalha.

A conversa ia ganhando terreno, e eu, de repente, comecei a pensar como
seria bom ensinar o pessoal a escrever ou pelo menos a assinar o nome, que
dava direito ao título de eleitor, para poder votar (se bem que não para
presidente, porque nessa matéria só votavam os militares)

E a conversa prosseguia em toada de boiada, aboiando os assuntos, Mané
Barrado agachado pitando o cigarrinho de fumo goiano, coisa boa, coisa de
bom gosto, cheirinho bom de fumo queimando no ar. Assentei bem o momento e
comecei a conversa, falando pausadamente, explicando. Minha gente, temos
que construir uma escola, levantamos uma casinha praquelas bandas, o
governo está dando o material, não quer o povo analfabeto, quer o povão
todo letrado, eu vou na cidade e falo com o prefeito e ele me dá o
material, quadro negro, giz, livros, lápis, cadernos.

Então Mané Barrado se aproxima, olha nos meus olhos com jeito solene, e me
fala:

-- Eu sei fazer um "ó" com o copo...

Olhei pro matuto e vi dignidade naqueles olhos, fiquei matutando, sentado
no toco de jacarandá, e olhava Mané Barrado agachado na minha frente,
esperando pelas minhas palavras. Então mirei o Mané Barrado nos olhos e
disse:

-- Então, homem, faz o "ó" com o copo!

Mané Barrado virou a cara na direção da cozinha, espichou os lábios e,
soprando forte, gritou pra filha:

-- Maria das Dores, traz o copo, minha filha.

Lá de dentro escuto a vozinha doce e infantil, "já vai pai..."

E lá vem Maria das Dores, linda caboclinha, aos pulinhos, contente,
enxugando o copo na barra do vestidinho. Era o único copo daquela casa,
copo pra Mané Barrado beber a Januária, pinga boa. Mané Barrado adorava
espiar a luz refletida no copo, pegou o copo de vidro e olhou contra o
restinho de sol da tarde, depois emborcou no chão, pegou um carvão na
fogueira ao lado e, com sacrifício, começou a riscar em volta do copo, as
mãos trêmulas, incertas, tateando, tentando segurar o carvão com imensa
dificuldade, o seu "ó" tomando forma. A caboclada juntou em volta, espiando
admirada. Após algum tempo, Mané Barrado retira o copo do chão, vê a letra
"ó" de sua autoria e olha para mim com orgulho e triunfo.

Aquietei as minhas vistas no desenho daquele homem, na mensagem, e fiquei
pensando: este caboclo nunca teve um lápis na mão, nunca teve uma folha de
papel nem instrução. Levantei-me com solenidade, olhei-o de novo e
disse-lhe:

-- Olha, Mané Barrado, tu sabe fazer um "ó" com o copo, é um patrimônio
teu, ninguém te tira este direito. Tu quando morrer vai ser enterrado com
este patrimônio...

Vi que ficou emocionado , vi o quanto ele se sentiu feliz. E como foi bom
eu lhe ter falado dessa forma. O tempo passa, passam as nuvens, o carcará
passa, o jaburu, passa a passarada pelas bandas do céu, como a minha vida
também passa e assim, cumprindo a sina do destino, fui morar no Rio de
Janeiro, depois de uma mão cheia de tempo, trabalhando em agências de
publicidade.

Trabalhava duro e cada dia mais, querendo aprender; usava a ilustração da
publicidade apenas para desenvolver a minha pintura e pintava com paixão; à
medida que evoluía na pintura eu desprezava cada vez mais a ilustração
publicitária; ia ganhando os meus cobres e torrava tudo em material de
pintura e livros, guardando um pouco na poupança, para os dias de vacas
magras.

Mas o novo governo civil do Brasil, em meio a uma crise econômica, tomou
uma decisão inesperada e bloqueou a poupança dos cidadãos, na tradição
autoritária, deixando-me sem o meu suado dinheirinho. Fiquei com um único
patrimônio, eu mesmo, juntei as minhas coisas e vim para Lisboa como pude.

Cheguei trazendo apenas o meu "ó" com o copo, porque este patrimônio, o
nosso saber, como disse daquela vez ao Mané Barrado, ninguém nos tira. Nada
vale mais do que fazer um "ó" com o copo.

A arte é um eterno aprendizado e aperfeiçoamento espiritual.


1 comentário:

jonga disse...

Grande Saulim,
Seu "causo" até hoje faz sucesso. Hoje mesmo recebí os elogios de uma conhecida, a Stela.
Tá na hora de você mandar um novo para o "Casos" da propaganda, certo?
Abração