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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Texto para a exposição na galeria Alberto Sarmento

T ive em tempos um espaçoso atelier em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Quando terminava de pintar, costumava colocar três telas grandes na parede,
para analisá-las de todos os ângulos, confrontando-me com a minha
pintura - eu na sala, eu nos quadros, - num exercício dialético de
auto-conhecimento, na rota de grandes descobertas.
Naquela época, eu tinha uma empregada doméstica chamada Eva, um pouco
analfabeta, que gastava o tempo soletrando as palavras da Bíblia,
enquanto ia preparando a comida mineira lá da roça, feijão tropeiro,
canjiquinha, frango com quiabo, santa cozinheira de mão cheia do
interior das Minas Gerais, o meu estado natal. Depois de muito
analisar as telas, eu chamava a Eva para dar a sua opinião de erudita
e crítica de arte sobre aquela recente produção. Fazia-lhe duas
perguntas, sempre as mesmas:

- Qual o quadro que você acha melhor? Qual o quadro de que você gosta
mais, que lembra a sua terra, dá saudade da família?

Na primeira pergunta, a Eva atrapalhava-se toda, olhava um quadro, o
outro, o terceiro, com duas bolas nos olhos, assustada e confusa. Na
segunda pergunta, ela iluminava-se com rapidez e ria feliz, indicando
logo um dos quadros, num genuíno gesto de sinceridade.

A arte é o que nos emociona, faz brilhar os olhos, toca o coração. A
arte não se explica, nem a minha nem a da Eva na cozinha.


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